Agilidade

Tecnologia sem critério vira complexidade (e ninguém compra complexidade)

Maturidade tecnológica é uma das expressões mais usadas nas conversas estratégicas de 2026, mas também uma das menos compreendidas. Eu vejo isso acontecer todos os dias: empresas investem em tecnologia, ampliam suas estruturas digitais, sofisticam suas ferramentas… e, ao mesmo tempo, aumentam a própria complexidade sem perceber.

Eu gosto de pensar que tecnologia é como infraestrutura invisível. Quando ela funciona bem, ninguém comenta. Quando não funciona, todo mundo sente.

E é curioso como a ausência de maturidade tecnológica raramente aparece no começo. No início, tudo parece evolução. Novas plataformas entram em operação, novos dashboards surgem, integrações são anunciadas como avanço estratégico. Só que, em algum momento, começa a surgir uma sensação difícil de explicar: as decisões ficam mais lentas, os times passam a discutir mais exceções do que visão, e a organização começa a gastar energia gerindo sistemas em vez de fortalecer o negócio.

Tecnologia sem critério não explode de uma vez. Ela acumula camadas. E cada camada adicional, quando não foi pensada dentro de uma arquitetura coerente, aumenta a complexidade estrutural.

Quando trabalhamos com a Suzano, por exemplo, o desafio nunca foi apenas desenvolver uma solução digital. Era entender que estávamos lidando com uma empresa de escala global, operações industriais robustas e decisões que impactam cadeia produtiva, sustentabilidade e performance de longo prazo. Nesse tipo de contexto, maturidade tecnológica não é sobre escolher a ferramenta mais moderna; é sobre escolher o que se integra, o que permanece e o que sustenta crescimento ao longo do tempo.

Grandes organizações não sofrem por falta de tecnologia. Sofrem por excesso de decisões desconectadas entre si.

A complexidade começa pequena. Um sistema que resolve um problema específico. Depois outro que cobre uma lacuna. Depois uma camada extra para compensar uma integração que não foi desenhada desde o início. Quando se olha o todo, o que parecia avanço vira uma estrutura difícil de governar.

E aí entra a pergunta que eu sempre faço em reuniões estratégicas: isso está simplificando o negócio ou está adicionando dependência futura?

Maturidade tecnológica significa fazer escolhas que reduzem a complexidade ao longo do tempo. Significa desenhar arquitetura antes de acelerar a entrega. Significa ter critérios claros para decidir o que entra, o que sai e o que precisa evoluir.

Ninguém compra complexidade. Nenhum conselho aprova orçamento para “aumentar dificuldade operacional”. O que os líderes compram é clareza, previsibilidade, capacidade de crescimento.

A tecnologia precisa servir a isso.

Quando ela deixa de servir e passa a exigir manutenção estrutural constante, o foco sai da estratégia e vai para o conserto. E empresas maduras não querem viver apagando incêndio digital.

Eu costumo dizer que a diferença entre inovação e complexidade é o critério. A mesma ferramenta pode ser estratégica ou pode virar peso. Depende da maturidade de quem decide implementá-la.

Se 2025 foi o ano da expansão digital, 2026 será o ano da consolidação inteligente. Vão crescer as organizações que aprenderam a dizer “não” antes de dizer “sim”. Que escolheram menos sistemas e mais coerência. Que preferiram arquitetura a improvisação.

Tecnologia escala quando há base. Sem base, ela apenas ocupa espaço.

E, no final das contas, maturidade tecnológica não é sobre ter mais recursos. É sobre ter decisões que sustentem o futuro.

Jeff.